Fernando Barral

É preciso olhar o circo e é preciso olhar o mal. São premissas da maturidade que me afloram e vêm à consciência aqui, neste Portugal. O mal e o circo são coisas diferentes.

O mal é amargo e doloroso. Ele é o outro lado da moeda. Ele é a noite e é a sombra. Ele nos arrebata e nos faz chorar. É preciso olhar o mal, ter nervos para isso. É necessária arte e união, visto posto que não se olha o mal nos olhos, como policiais ou sacerdotes, mas a nós cidadãos comuns nos cabe estarmos atentos e nos defendermos – nem que seja do mal em nós mesmos.

O mal apaga as luzes. O mal é um conceito imortal, assim como o bem. É nessa toada que gira o mundo, que gira a sapiência e o poder. Agora, há mais. Há os pobrezinhos e há o circo. O circo será eterno? Provavelmente. Provavelmente os pobrezinhos só encontrarão satisfação na sua migalha de contorcionista, de anões, de leões e domadores, de palhaços, enfim, do riso e do espetáculo. Este é o seu encontro com a realidade, sua potência satisfeita. E em todos nós cabe o circo. Todos nós olhamos para cima e nos perguntamos – e agora? E agora? Cabe ao mágico e ao MC (Mestre de Cerimônias) estas questões.

Mas o bem e o mal cruzam e atravessam a canção do circo. E alimentam-se dele. O sonho e o pesadelo é o que nos cabe como seres pulsantes e vertebrados. O sonho e o pesadelo transcendem e alimentam a tudo isto, fazendo com que o mundo gire sem modéstia e a verdade se transfigure até estar em paz.

Cabe aos líderes, como seres produtivos – maquiavélicos ou não – dialogar com essas forças e contextualizá-las. Isto posto, porque no fundo, no fundo, creio eu, os pobres de espírito e de recursos querem pouco mais, a não ser serem ouvidos. É isso. A fonte do suplício e do desespero existencial.

O mal não é surdo. Mas há mal que nunca se acabe?

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